PSICOLOGIA E ESPIRITISMO



A PSICOLOGIA tornou-se uma ciência em fins do Século XIX, cujo objeto principal é o comportamento humano. Não é a ciência da “alma”, como o termo sugere, em que pese estar estudando aspectos que envolvem a fronteira entre o concreto e o subjetivo. Suas escolas variam de objeto, mas nenhuma delas considera a existência do Espírito ou mesmo do perispírito. Seria preciso criar, portanto, uma nova ciência que delineasse melhor um objeto de estudo, alcançando a realidade espiritual. Uma psicologia do Espírito poderia açambarcar todas as possibilidades, porém seria muito ampla e excessivamente subjetiva. Proponho uma Psiquismologia, isto é, uma ciência que se ocupe em estudar o psiquismo humano e suas relações com o corpo e com o espírito. Algo intermediário entre a psicologia do comportamento humano enquanto ser encarnado e a psicologia do Espírito. Ela se ocuparia em estudar o funcionamento do aparelho psíquico e seus processos, os quais são relevantes à compreensão da verdadeira natureza humana.

Só historicamente e etimologicamente a psicologia deve ser considerada a ciência da alma. Ela nunca o foi, mesmo que encontremos aqui ou ali registros de pensadores com a disposição em fazê-la. A psicologia é ciência do comportamento humano. A ciência da alma agora é o espiritismo, que se ocupa exatamente de estudar o objeto atribuído à psicologia.

A psicanálise é uma escola da psicologia baseada nos princípios de Sigmund Freud, cujos conceitos principais são: inconsciente, ego, id e superego. Nela, o fator motivacional e gerador de angústias, neuroses e psicoses se encontra na libido ou sexualidade. A psicanálise determinou um novo rumo à psicologia, então restrita ao comportamento de um organismo, observado de forma rigorosamente matemática. A psicologia era principalmente fisiologia antes da psicanálise. Foram fundamentais ao desenvolvimento da psicanálise as ideias da catarse, oriundas de Aristóteles, Santo Agostinho, Breuer e outros, da livre associação e da conscientização dos conteúdos inconscientes. Infelizmente sua prospecção só vai até a infância. O Século XIX tinha uma proposição também hedonista (os seres humanos eram motivados para obter o prazer e evitar a dor). Isso influenciou a psicanálise, bem como o evolucionismo darwiniano.

O espiritismo, tanto quanto a psicanálise, provocaram o desenvolvimento da Psicologia. O primeiro, por se insurgir contra a tentativa dos estudiosos da psicologia em negar a existência do espírito em suas experiências; a segunda, pelo avanço fundamental nos estudos a respeito do inconsciente humano. O viés comportamental da psicologia do século XX, que excluiu a análise do fenômeno mediúnico do campo da ciência, contribuiu para que este e o espírito imortal se tornassem objetos de estudos específicos do espiritismo. Nenhum saber humano se ocupa do que estuda o espiritismo: o Espírito e a realidade espiritual.

Por ser tão vasto o campo de alcance da Psicologia, é possível encontrar profissionais que a ela se dedicam atuando em escolas, clínicas psiquiátricas, hospitais, empresas, locais de lazer e de repouso, consultórios de psicoterapia, etc. Tais campos de atuação não apresentam uniformidade quanto aos paradigmas psicológicos envolvidos. Devido a tais fatores e à própria natureza da psiquê, a psicologia é uma ciência que ainda não finalizou seu processo de consolidação.

Psicologia e espiritismo são conhecimentos distintos, tanto quanto têm pressupostos e paradigmas distanciados por contextos diferentes. A psicologia por muito tempo seguiu a escola alemã e a inglesa, fundamentadas no empirismo clássico, responsáveis por duas grandes correntes surgidas no século XX: a psicanálise e o behaviorismo. O espiritismo, por outro lado, seguiu a escola racionalista francesa, da observação e da experimentação. Ambos, espiritismo e psicologia são segmentos do saber humano e tratam de questões psicológicas; o primeiro tem sido considerado como pertencente ao conhecimento religioso e o segundo ao conhecimento científico. O primeiro é pesquisado, ou deveria sê-lo, nos Centros Espíritas, o segundo, nas Universidades. As fronteiras entre esses dois campos foram muito bem definidas, com ênfase radical na segregação por parte das academias, sem que se observasse o mesmo por parte dos órgãos de divulgação do espiritismo. Muito embora essa segregação proposital continue a ocorrer, cada vez mais eles estão se tocando a partir de eventos fronteiriços de difícil apreensão exclusiva por qualquer um dos campos.

No final de século XX começou a aparecer uma zona de confluência que parecia aproximar, nas práticas adotadas, as duas áreas. Essa zona se situa no campo clínico e terapêutico de ambos. Adiante da psicologia, o espiritismo vem propondo a causalidade dos conflitos atuais como oriundos de experiências passadas, em vidas anteriores. Corroborando essa afirmação, consultórios clínicos em vários países e principalmente nos Estados Unidos, têm oferecido rico material encontrado pelos psicoterapeutas e que foram publicados, oriundos de suas experiências com regressão de memória. O resultado disso é uma avalanche de terapeutas, no Brasil e outros países, que praticam a chamada Terapia de Vidas Passadas ou Regressiva a Vivências Passadas. Proliferam os cursos de formação de terapeutas nessa prática. Dada a falta de estudos técnicos mais fundamentados, muitos equívocos são cometidos e poucos resultados são obtidos. A maioria daqueles terapeutas ignora o que diz o espiritismo sobre o assunto, no tocante aos conhecimentos sobre reencarnação.

A psicologia clínica e o espiritismo começam a tratar de temas semelhantes e, em alguns casos, utilizando as mesmas práticas. Muito embora a regressão de memória seja largamente utilizada nas práticas mediúnicas de atendimento terapêutico a desencarnados, ela não é aplicada no auxílio aos conflitos dos encarnados que buscam os Centros Espíritas.

Assim como a regressão de memória, a mediunidade também tem sido tratada com certo desdém pelas academias, o que favorece o charlatanismo e o despreparo pelos que dela se utilizam como instrumento de cura dos conflitos humanos. Mesmo assim, ela tem sido percebida pela prática clínica psicológica como justificativa para certos casos de esquizofrenia, de transtornos mentais, de psicoses e outras afecções psíquicas.

A mediunidade teve seu conceito estabelecido por Allan Kardec, quando escreveu a respeito de seu portador que “Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium.”, concluindo que ela é inerente ao ser humano, não se constituindo em privilégio exclusivo.

Evidentemente que esse conceito não é suficiente para uma visão clara do que seja a mediunidade. Sua definição está atrelada à de outro conceito que merece compreensão adequada. Não se pode falar em mediunidade sem se colocar a existência do espírito como fato inconteste. Dessa forma, é preciso partir do princípio que a mediunidade permite a percepção de uma ordem de fenômenos cujas causas não são atribuíveis exclusivamente à ação da mente humana.

Tanto a psicologia quanto o espiritismo se referem à psiquê humana, porém o fazem considerando paradigmas distintos. Pretender negar o fenômeno mediúnico, como o faz a maioria das escolas psicológicas, proporciona seu distanciamento em alcançar a fronteira do saber. Por outro lado, negar os processos psíquicos e suas interferências nos fatos espirituais proporciona a privação do entendimento sobre os mecanismos psíquicos, através dos quais o espiritual se manifesta.

A psicologia não deve se tornar espírita, porém o espiritismo, sem que o force, é pura ciência de natureza psicológica. A obsessão, se estudada meticulosamente, penetrará em questões médicas e psicológicas até então relegadas ao fisiologismo materialista.

No estudo dos processos chamados psicóticos e dos transtornos psíquicos, o espiritismo também se aproxima da psiquiatria, quando terapeuticamente busca solucionar o que considera do domínio da obsessão. Enquanto a psicologia e a psiquiatria consideram que todos os transtornos psíquicos têm sua origem na psiquê e no complexo sistema cerebral, o espiritismo enquadrará a maioria deles como decorrentes de influências espirituais e de processos cármicos.

A ciência transita entre o conhecido e o desconhecido. Busca investigar, descrever, conceituar e experienciar tudo que lhe pareça relevante. Nada deve ficar obscuro. Tudo deve merecer sua explicação lógica. Não basta conceituar ou mesmo, a partir de conceitos pré-estabelecidos, limitar-se a considerar os fatos como explicados por si só. Embora esse seja o lema da ciência, ela, porém, não tem sido neutra quando investiga os fenômenos espíritas. Há distanciamento cauteloso, e, às vezes, medroso, quando se depara com fenômenos que parecem subverter a ordem científica. Ciência é um senso coletivo e não uma verdade universal. O preconceito coletivo a afastou de ir ao encontro do Espírito.

NOVAES, Adenáuer Marcos Ferraz de. Filosofia e espiritualidade: uma abordagem psicológica. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 2004.

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