REALIDADE E ILUSÃO
O PROBLEMA
da interpretação da realidade mais avulta quanto melhor se penetra na estrutura
das coisas.
A visão inicial,
objetiva, capta a imagem do capricho dos átomos, aquilo que eles expressam
sob a força da aglutinação de suas moléculas. À medida que se recorrem às lentes
de grande alcance, vai mudando a aparência até lograr-se detectar os espaços subatômicos,
onde se movimentam as partículas...
No campo
psicológico dá-se o mesmo fenômeno. Sob a máscara da personalidade, encontram-se
expressões insuspeitáveis da realidade, que somente a largo tempo e com o
auxílio das lentes da percepção profunda se consegue identificar.
A criatura
humana é um complexo de expressões que se alternam conforme as circunstâncias e
se exteriorizam de acordo com os acontecimentos que penetram nas aparências, desvelando
a realidade em cada indivíduo. Mesmo essa, periodicamente, cede a outras mais
significativas, que se encontram adormecidas e despertam ampliando o seu campo
de manifestação, até sobrepor-se predominando e desvelando o ser legítimo.
Na larga viagem
da evolução, o Espírito assume inumeráveis expressões comportamentais que lhe
imprimem características, a princípio inconscientemente, para em caráter de
lucidez burilá-las e ultrapassá-las, qual foco irradiante de luz, momentaneamente
velada por uma lâmina de vidro embaçada, que se libertou da película
impeditiva.
As experiências
da evolução propõem a fixação dos valores legítimos - aqueles que são de
duração permanente - enquanto os secundários, que são transitórios, servem apenas
como recurso pedagógico para a aprendizagem.
Essas
manifestações, que defluem das heranças perturbadoras, formam o quadro dos transtornos
psicológicos e outros, que maceram o ser e o levam a estados de angústia, de
inquietação, de desordem mental...
Na raiz,
portanto, de qualquer transtorno neurótico jaz um conflito moral.
O grande
desafio, no processo da seleção de valores, constitui a identificação de quais comportamentos
éticos e morais são os recomendáveis.
Uma imensa gama
de preconceitos criou uma rede de conceituações hipócritas, que confundem os
códigos sociais com os morais, deixando campo para escapismos e justificativas diante
de algumas atitudes, assim como geradores de consciência de culpa em
outras.
Tal
comportamento social tem gerado reflexões que concluem por condutas cínicas,
nas quais, pela ausência de padrões corretos, universais, ensejam o desvario, a
agressividade, o pessimismo, a anarquia...
Podemos, porém,
estabelecer parâmetros para a identificação dos valores éticos de maneira
simples e inequívoca: são eles saudáveis em todas as culturas, aceitos e recomendáveis,
classificados como expressão do bem, pelos resultados positivos que propiciam.
Aqueloutros, os que são reprocháveis pelos danos que ocasionam, em todo lugar
têm a mesma figuração, considerados, desse modo, perniciosos, portanto, negativos.
A ação do bem em
favor de si mesmo, do grupo social e da comunidade, tendo em vista todos os
seres sencientes, constitui um princípio ético imbatível, porque fruto do amor,
do respeito à lei natural vigente em toda parte.
Tudo quanto se
considera virtude faz parte desse valor ético e dessa moral, que trabalham o
ser profundo e o estimulam ao crescimento, ao desdobramento das potencialidades
adormecidas.
Da mesma forma,
o primarismo e suas manifestações egoístas, quais a perversidade, o desamor, a
traição, o ódio, o orgulho e todas as mazelas que perturbam o ser, após a sensação
de prazer momentâneo que o ilude, são atitudes prejudiciais, desprezadas por todas
as mentes lúcidas e laboriosas, encarregadas do processo de crescimento da Humanidade.
Esses paradigmas
oferecem ao ser inteligente os meios para alcançar a realidade superando a
ilusão, porquanto portadores das estruturas permanentes do bem-estar, da paz,
da autorrealização.
Nessa seleção de
valores surge a questão do julgamento, a análise de qual conduta adotar durante
os fenômenos da evolução humana.
Em face do
prazer embriagador fascina e emula ao gozo, do qual se desperta com tédio, frustração,
por efeito da transitoriedade de que se faz intermediário.
Colocando-se a
felicidade na satisfação das necessidades fisiológicas e sociais, é inevitável
que o despertar seja sempre deprimente, cansativo, destituído de significação real.
Por isso,
jornadeiam de uma para outra satisfação as multidões em aturdimento, sempre
sedentas de novas experiências, de novos gozos.
O despertar das
emoções elevadas elege outra gama de alegrias interiores, que se expressam em
júbilos profundos, compensadores, que plenificam, emulando a novas conquistas
iluminativas.
A vida
psicológica, na busca da realidade, tem como suporte a conduta moral sem conflito,
consciente da responsabilidade.
Seguindo um
natural processo de superação dos atavismos primitivos, surgem patamares que se
vão conquistando, logrando novos descortinos sempre ascensionais.
Cabe ao ser
humano, fadado à realidade, superar os obstáculos e superar-se, descobrindo as
finalidades existenciais e raciocinando em termos de vida plena, constante, de sabor
eterno, iniciar e prosseguir no autoencontro, mantendo a serenidade no curso da
evolução.
Diante de um
equívoco, de um fracasso, entesoure-se a experiência e recomece-se o tentame.
A realidade
profunda jaz sob a personalidade do ser em trânsito, ainda mergulhado na ilusão,
a um passo, certamente, da decisão de conquistá-la e ser feliz.
ÂNGELIS, Joanna
de. Autodescobrimento: uma busca interior. Psicografado por Divaldo
Pereira Franco. Salvador: LEAL, 2013.

