VELHOS HÁBITOS
“... O corpo não
dá cólera àquele que não a tem, como não dá os outros vícios; todas as virtudes
e todos os vícios são inerentes ao Espírito; sem isso, onde estariam o mérito e
a responsabilidade?...”
EM
PRIMEIRO LUGAR, é necessário conceituar que vícios são dependências
vigorosas e profundas de uma pessoa que se encontra sob o controle de outras ou
de determinadas coisas.
Portanto, deve
ser considerado como vício não apenas o consumo de tóxicos e de outros produtos
de origem natural ou sintética. O conceito é mais amplo. Analisando-o em
profundidade, podemos interpretá-lo como atitude mental que nos leva
compulsoriamente à subjugação a pessoas e situações.
Muitos de nós
aprendemos a ser dependentes desde cedo, dirigidos por adultos superprotetores
que nos imprimiram “clichês psíquicos” de repressão, que se refletem até
hoje como mensagens bloqueadoras dentro de nós e que não nos deixam desenvolver
o “senso de autonomia” e de independência. Outros trazem enraizadas
experiências em que lhes foi negada a possibilidade de exercer a capacidade de
seleção de amigos e parceiros afetivos, em virtude da intervenção de adultos
prepotentes. Essa nociva interferência torna-os mais tarde indivíduos de
caráter oscilante, indecisos, assustados e inseguros. Outros ainda, por terem
sofrido experiências conflitantes em outras encarnações, em contato com
criaturas desequilibradas e em clima de inconstância e desarmonia, são
predispostos a renascer hoje com maior identificação com a instabilidade
emocional.
Dessa forma,
entendemos que os fatores que propiciam os vícios e as compulsões ocorrem em
ambientes familiares-sociais desarmônicos, desta ou de outras encarnações, onde
deixamos as pressões, traumas, coações, desajustes e conflitos se enraizarem em
nossa “zona mental” ou “perispiritual”, porquanto os vícios não
passam de efeitos externos de nossos conflitos internos.
Vale ressaltar
que nossa sociedade, a rigor, é extremamente “machista”, razão pela qual
muitas mulheres foram educadas para aceitar comportamentos dependentes como
sendo “virtudes femininas”, o que as leva a viver dentro de “demarcações
estreitas” do que elas devem ou podem fazer.
O vício do
álcool, sexo, nicotina, jogos diversos ou drogas farmacológicas são formas
amenizadoras que compensam, momentaneamente, áreas frágeis de nossa alma
desestruturada.
Aliviam as
carências, as ansiedades, os desajustes, as tensões psicológicas e reduzem os
impulsos energéticos que produzem as insatisfações e o chamado “mal-estar
interior”.
Pode parecer que
as opções vício-dependência disfarcem ou abrandem a “pressão torturante”,
porém o desconforto permanece imutável.
O álcool e a
droga são sedativos ou analgésicos, mas por acarretar gravíssimas consequências,
são denominados “vícios autodestrutivos”. A comida é uma dependência
considerada, de início, “vicio neutro”, para, depois, transformar-se
numa “opção de fuga” negativa e profundamente desorganizadora do nosso
corpo físico-psíquico.
Há manias ou
vícios comportamentais tão graves e sérios que nos levam a ser tratados e
considerados como pessoas de difícil convivência, isto é, inconvenientes:
— Vício de
falar descontroladamente, sem raciocinar, desconectando-nos do
equilíbrio e do bom senso.
— Vício de
mentir constantemente para nós mesmos e para os outros, por não
querermos tomar contato com a realidade.
— Vício de
nos lamentarmos sistematicamente, colocando-nos como vítima em face da
vida, para continuarmos recebendo a atenção dos outros.
— Vício de
nos acharmos sempre certos, para podermos suprir a enorme insegurança
que existe em nós.
— Vício
incontido de gastar desnecessariamente, sem utilidade, a fim de
adiarmos decisões importantes em nossa vida.
— Vício de
criticar e mal julgar as pessoas, para nos sentirmos maiores e melhores
que elas.
— Vício de
trabalhar descontroladamente, sem interrupção, para nos distrairmos
interiormente, evitando desse modo os conflitos que não temos coragem de
enfrentar.
Inquestionavelmente,
as chamadas viciações resultam do medo de assumir o controle de nossa vida e,
ao mesmo tempo, do medo de nos responsabilizarmos por nossos atos e atitudes,
permitindo que eles fiquem fora de nosso controle e de nossas escolhas.
Quaisquer que
sejam, contudo, os motivos e a origem de nossos “velhos hábitos”, urge
estabelecermos pontos fundamentais, a fim de que comecemos indagando “por
que somos” dependentes emocionalmente e “qual é a forma” de nos
relacionarmos com essa dependência.
Aqui estão
alguns itens a serem também observados e que provavelmente nos ajudarão a ser
mais independentes, além de capazes de satisfazer nossos desejos e vocações
naturais. Ao mesmo tempo, nos permitirão estar junto a pessoas e situações sem
tomar-nos parcial ou totalmente dependentes delas:
— Aguçar
nossa capacidade de decidir, de optar e de escolher cada vez mais livre
das opiniões alheias.
— Combater
nossa tendência de ser “bonzinhos”, ou melhor, de desejar ser sempre
agradáveis aos outros, mesmo pagando o preço de nos desagradar.
—
Estimular nossa habilidade de dizer “não”, quantas vezes forem
necessárias, desenvolvendo assim nosso “senso de autonomia”, a fim de
não cair nos “modismos” ou “pressões grupais”.
—
Estabelecer no ambiente familiar um clima de respeito e liberdade,
eliminando relações de superdependência “simbióticas”, para que possamos
ser nós mesmos e deixemos os outros ser eles mesmos.
— Criar
padrões de comportamentos positivos, pois comportamentos são hábitos, e
nossos hábitos determinam a facilidade de aceitarmos ou não as circunstâncias
da vida.
—
Conscientizar-nos de que somos seres humanos livres por natureza, mas
também responsáveis por nossos atos e pensamentos, pois recebemos por herança
natural o livre-arbítrio.
— Cultivar
constantemente o autoconhecimento:
-
reforçando nossa visão nos traços de nossa personalidade que já
conhecemos;
- buscando
nossos traços interiores, que ainda nos são desconhecidos;
-
analisando as opiniões de outras pessoas que, ao contrário de nós, já conhecemos
nosso perfil psicológico;
- aceitando plenamente nosso lado “inadequado”, sem jamais
escondê-lo de nós mesmos e dos outros, tentando, porém, equilibrá-lo.
Meditemos, pois,
sobre essas ponderações que, com certeza, nos ajudarão a libertar-nos dessas “necessidades
constrangedoras”, cujas verdadeiras matrizes se encontram na intimidade de
nós mesmos.
HAMMED. Renovando
atitudes. Psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto.
